
(Aaron Jasinski)
Joga a pedra na água. Formam-se os círculos quase audíveis, as ondas-espirais.
Sentada na grama, verde em tom sobre tom, como se a tivesse pintado com pilot, a menina suja a saia, molha os cabelos, enlameia-se. Está protegida no silêncio.
Mais uma pedra, agora em direção ao céu. Olha para cima e vê a solidez caindo em direção ao rosto. Quando parece que ela vai tocar a ponta do nariz, quando quase sente o gelado da superfície áspera, desvia.
Corre e busca mais brinquedos de natureza, colhe ainda que recolhida.
O sol some. Ela sozinha, de marrom, camuflada no meio do mato. O escuro envolve, as formas parecem novas. Os galhos são braços, as flores são borboletas paradas, as folhas são setas. Deita, olha para o céu. Milhares de pontos brilhantes, diamantes em forma crua.
Abraça os joelhos, adquire forma ovalada. Vai ficando cinza, dura, granito. Rola até o rio e mergulha. Sente o ar entrando em poros esponjosos, vida molhando, lapidando. Ondas-espirais sobre o seu teto confundem direção, sente a superfície, gelo, calor, peso, volta. Está presa.
Amanhece, sente raios de luz. Sobe, respira, sai da água com quilos a mais na saia. Torce o pano com a mão, amassa a roupa, joga-se no chão-grama, exausta. Olha para o céu e confere: os diamantes não estão mais lá. Pega a borboleta morta, põe nos cabelos, ajeita as asas de libélula em volta e faz de galhos uma tiara.
Volta para casa correndo, ofegante, risonha. Olha-se no espelho e penteia os cabelos com os dedos, garfo de marfim talhado. Despe o vestido, que molha a madeira do quarto. O contato com os longos cabelos arrepia a pele. Parada na frente do reflexo, vê: está limpa.
16:05 - publicado por Crib Tanaka